Entrevista com o sociólogo Emir Sader publicada na revista Fórum, novembro de 2005. Por Renato Rovai e Frédi Vasconcelos
O senhor acredita que a direita se rearticulou rapidamente durante o governo Lula e hoje está mais forte ou acredita que a correlação de forças na sociedade brasileira mantém-se a mesma?
A questão principal é que quando a esquerda chegou ao governo central no Brasil ela já havia perdido a batalha das idéias. Mudou muito o cenário político ideológico no Brasil desde a primeira candidatura Lula. O neoliberalismo se tornou fortemente hegemônico, não apenas como modelo econômico, mas como visão de Estado. E sua visão de mundo está introjetada também na esquerda. Não só do ponto de vista econômico, mas também dos valores. Basta lembrar da última campanha eleitoral de Lula. O tom forte da campanha eleitoral era o da oportunidade, aquele menino que falava “eu quero uma oportunidade”. Esse é o mote do neoliberalismo, que substitui direito por oportunidade. A meu ver isso guarda relação com o fato de o recente sindicalismo brasileiro, pela sua história, confundir a ditadura militar com o Estado. O sindicalismo todo foi formado numa linha não de fortalecer o SUS, mas de lutar por planos de saúde privados. Mesmo o sindicalismo tradicional, anterior ao Lula, também não estava comprometido com a universalização dos direitos. De certa forma, se tratava de um problema original, que depois degenerou nessas coisas de privatização para fundos de pensão. Naquele livro grosso que o Gushiken (Luis, assessor especial do presidente Lula) escreveu financiado pelo governo FHC. Também acho que a candidatura do Lula não foi uma candidatura do PT. Ele foi se autonomizando em relação ao PT, mesmo o programa antes da Carta aos Brasileiros foi feito pelo Instituto da Cidadania e não passou pelo PT diretamente. E que depois com a Carta aos Brasileiros mudou sua natureza, pois antes não tinha um compromisso com o capital financeiro. Era mais ou menos uma disputa entre capital produtivo e capital especulativo. A Carta ao Povo Brasileiro mudou a natureza da candidatura do Lula para um compromisso com o capital financeiro e inviabiliza a saída do modelo. Entre outras conseqüências, a impossibilidade de se fazer uma política centrada no social, só sobram recursos para fazer políticas focalizadas.
O senhor não considera que a Carta aos Brasileiros foi a senha para que a candidatura Lula pudesse ser “confiável” e viesse a ganhar as eleições?
Acho um erro dizer tem que ganhar de qualquer jeito. O Getúlio também achava que por definição ele representava o trabalhador brasileiro. O Lula acha que por suas origens, faça o que faça, ele não deixa de representar o pobre, o trabalhador, o operário. Isso é falso. A situação social não se transfere automaticamente para posição social. É equivocado, portanto, achar que se está livre para fazer qualquer aliança para vencer. O problema não é a aliança com José Alencar, que é totalmente inócua, ou com os evangélicos, mas sim com o capital financeiro, feita pelo Palocci, pela direção da campanha de 2002. Eu não choraria como fez o Chico Alencar (deputado federal do PSol-RJ) e outros por conta da história do caixa 2. Choraria pela indicação do Henrique Meirelles (presidente do BC). Acho que sem a carta o Lula poderia não ganhar a eleição, mas não significa que ganhar de qualquer maneira valha a pena, porque joga pela janela uma acumulação de forças histórica. E é o que está acontecendo.
Em duas das últimas edições de Fórum os entrevistados Ciro Gomes e Luis Gonzaga Belluzzo trataram da questão da Carta aos Brasileiros. O Ciro disse que quando a leu sentiu o golpe e entendeu o que estava escrito. O Belluzzo afirma que depois de ler perguntou ao José Dirceu algo como se era uma carta tática ou estratégica. E que nos primeiros dias de governo percebeu que não se tratava apenas de uma peça para acalmar o mercado...
É verdade que o ataque especulativo que ocorreu antes das eleições foi totalmente brutal e desleal. Uma minoria de pessoas exerce seu direito de veto, não importa o que a maioria queira. Então, fazia parte da escaramuça neutralizar isso. Agora, se era para assumir aquela Carta como algo estratégico era necessário dizer o que ela negava. Ela jogava fora a prioridade social, tanto que a ditadura é do Palocci, que contingência os recursos.
Ou seja, o senhor defende que houve uma vitória da direita anterior às eleições no plano econômico. Mas agora com a vitória do “não” no referendo isso não se ampliou para a esfera da moral, o resgate do discurso da segurança pelo seu viés mais torpe, do direito de matar?
O que há de liberalismo aí é esse argumento cínico do “eu sou pacifista, mas cada um tem direito de decidir se quer arma ou não”, como se fosse chiclete que pode fazer mal pros meus dentes. Acontece que a arma pode matar. A idéia de remeter para a liberdade individual é uma idéia de mercado, cada um decide o que bem entende. Isso do direito remetido à esfera individual foi muito forte. Depois, ainda existem os trogloditas de extrema direita que o Bornhausen comanda e que falam em “acabar com essa raça”. Alguns mais exacerbados se arriscam a dizer alguma coisa e depois começam a generalizar. Essa idéia de extermínio, de liquidação política, de acabar com a raça é uma coisa que cola. Não tenho dúvidas de que um dos alvos é o MST. (Na segunda feira seguinte a entrevista (31/10) três lideranças do movimento foram assassinadas no estado de Pernambuco.)
Mesmo a campanha do “não” tendo trabalhado o discurso do “homem de bem”, aquele que tem propriedade privada e deve ter o direito a estar armado teve um setor da esquerda que se associou ao “não” dizendo que o povo precisa andar armado pra fazer a revolução, como o senhor analisa isso?É um discurso aventureiro. Para esse pessoal a nova direita é o PT e se não destruir o PT eles consideram que não vai haver espaço para a suposta nova esquerda no Brasil. O maoísmo também começou criticando a União soviética pela esquerda, por conta das fábricas de automóveis que reproduziam o estilo burguês, a convivência com o imperialismo. Acusavam a União Soviética de capitalista. Depois, começaram a criticar a União Soviética pela direita, se associaram ao Pinochet e ao apartheid na África do Sul. Adotaram a idéia de que, precisavam destruir a União Soviética – com a qual eu nunca concordei – porque senão não haveria espaço para a China no cenário político mundial.
O que parte da esquerda faz na CPI é reproduzir essa idéia em miniatura, se não destruir o PT não há espaço para eles. O discurso do Chico Alencar ontem (27/10) foi vergonhoso. Acho que o Zé Dirceu tem que ser expulso do PT. Essa direção, com Delúbio e outros, só estava lá por conta dele. Mas não tem nada provado contra ele. Assinei, com dor no coração, a solidariedade a ele, para não ser taxado de oportunista. Ele está sendo acusado sem nenhuma prova. É absurdo. A polarização é direita e esquerda, tem os dois lados no governo e tem também na oposição, fazer isso que eles estão fazendo é se somar com a direita.
É verdade que no referendo houve outras divisões, tanto que a Veja estava de um lado e a Globo de outro. Mas, o MST estava de um lado e a UDR de outro. Isso precisa fazer parte da reflexão. Esses canalhas não são vítimas de violência, não estão ligados ao MST, não vivem nos bairros pobres, então podem se dar ao luxo de fazer isso. E a Luciana Genro (deputada federal PSol-RS) ainda faz um artigo de merda dizendo que a vitória do não foi uma advertência que o povo fez a este governo. Imagina, isso é manipulação da direita. São urubus. Eles não estão dando a cara todo dia para batalhar contra a direita, o Bornhausen, o capital financeiro. Usam 100% da sua energia para atacar a esquerda. Esquerda no sentido leninista da palavra, não como xingamento. Aí eles se desfiliam da CUT e fazem faixas “contra o FMI, Lula e CUT”. A CUT é um aliado moderado. Na Alemanha se abriu espaço para o fascismo porque se achou que a social-democracia era um braço social do fascismo. Na hora em que a situação está se revertendo, não se pode jogar aliados para o outro lado. E aí a Andes (Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior) se desfilia para ficar solta no mundo. Vai se fazer outra central sindical agora no refluxo? O primeiro fracasso nosso é o fracasso do governo Lula, por não sair do modelo. O segundo, é clássico, a fragmentação da esquerda, a atomização.
E isso leva aonde?
Os mercados já deram o golpe na campanha eleitoral. Naquele momento da fuga de capitais, o Lula estava empacando em 30%. Foi passado pela Roseana, depois foi passado pelo Ciro nas simulações de segundo turno. O clima era para eleger o Ciro Gomes, estabilidade mais política social, mas sem romper com nada. Quando o Serra desarticulou o eleitorado do Ciro, ele não teve capacidade de trazer pra si. Aí vem a Carta aos Brasileiros e a fase “Lulinha paz e amor”. Ali foi o golpe, dado em 2002 e, no fim do ano, quando se anuncia o Meirelles se institucionalizou isso. O Kirchner renegociou a dívida, tinha outros caminhos.
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